#000006 – 18 de novembro de 2019

Há ideologias que são fantasia. E ideologias que são sci-fi.

Sou um progressista, mas imagino conseguir perceber o apelo do conservadorismo. É um impossível a que vale a pena aspirar. A defesa de um mundo que parece ruir, à nossa volta. A integridade que resiste, como estrutura moral essencial. Não sou insensível a utopias. A ficção científica faz-nos testar ideias impossíveis. Mas a narrativa só funciona se fundamentada na nossa realidade imediata. O meu anarquismo é uma impossibilidade bela, que vale a pena defender. Depende da ajuda mútua que Kropotkin lançou para o mundo, como ideia-semente de uma fertilidade irresistível.

À fantasia, basta-lhe ser internamente coerente. Quando Mussolini explicava a força de um fáscio, a ideia não desafiou a lógica, pareceu mesmo confirmá-la. E é uma ideia que, sem as mesmas conotações, surge noutras apologias menos patológicas: sozinhos, somos fracos, mas juntos ninguém nos quebra. Já imaginar a nossa realidade rumo a um fascismo perfeito é o mesmo que erigir um pesadelo. Para que o fascismo funcione, é preciso primeiro abolir a realidade, ou deturpá-la. E o objectivismo e as outras ideologias irmãs à veia Randiana são enfermas desta mesma necessidade: primeiro encontram a solução, a seguir há que criar problemas no mundo para corrigir diligentemente.