#000007 – 19 de novembro de 2019

Os computadores renovam-se. Reinstalar software é gratificante. Porque aqui existe dualidade: o fantasma das nossas vontades a habitar a máquina. As instruções são uma coisa e a máquina outra. É possível escrever código sem ter a máquina. Foi a matemática da antiguidade grega que nos deu os primeiros exemplos conhecidos de programação, instruções sem processador que as executasse. E é possível termos uma máquina sem instruções. Quando surgiram no século XVIII os primeiros teares a usar cartões perfurados era mais evidente a passagem desde o momento anterior. Esta transição continua a intensificar-se, agora que nos dedicamos a tornar todos os objetos inteligentes e ligados.

É francamente agradável abordar assim uma máquina tão essencial. Vesti-la de significado, com roupa genérica, de forma a que pareça nova. Disponível a receber instruções. Nenhum organismo tem esta separação, felizmente. Mas convergimos. Seja pela crueldade curiosa das câmaras de condicionamento atuais, seja pelo apetite científico de inventar controlos remotos para os bichos, padecemos de uma mórbida capacidade de animar monstruosidades.

Estranha e verdadeiramente fértil, para quem escreve sci-fi, é esta crença de que poderemos observar a emergência da consciência em software. Chamam-lhe inteligência e chamam-lhe artificial, a um evento. O que quer que surja, necessitará de novos antagonismos e paradoxos na filosofia e na política. Ainda sofremos a desilusão do Modernismo, passado um século. Como será o pós-singularismo?