#000011 – 23 de novembro de 2019

Os sonhos diurnos influenciam o sono sonhado.
Lucidez é regular a agulha, redescobrindo o Norte.
Freedom of the Will, assim chama Noam Chomsky ao livre arbítrio. A liberdade da vontade poderá ser uma utopia, algo a aspirar. Estou mais inclinado a pensar que é uma prática, um ofício. Matthieu Ricard fala do conceito budista do caminho do meio. Entre o nihilismo e o determinismo, uma via aberta. A ideia de que causas e efeitos, pessoas e karma estão ligados numa vasta rede de interdependências.

Para que o bater de asas cause o tsunami, faz pouco sentido imaginar uma cadeia de causa e efeito, como um dominó à escala planetária, em que a queda da primeira peça desencadeia uma catástrofe consequente, obediente à flecha do tempo e de espetacularidade tranquilizadora.

A interdependência será a estrutura do caos. Ou a sua consciência. Para que algo aconteça ou fique por se manifestar, tudo no universo o permitiu. Não é possível traçar uma linha desde o Big Bang até este ponto final. A entropia não aumenta em incrementos lineares. Este mesmo universo é, causalmente, um vibrante multiverso de possibilidades paralelas e versões de si mesmo, uma gloriosa confusão de tangentes e interseções.

Neste pálido ponto azul em que algumas empresas têm as suas próprias redes de causa e efeito, num marketing behaviorista e eficaz, começámos a pôr de lado conceitos optimistas como a serendipidade. Tudo ganha contornos cinzentos e maquiavélicos, e o cinismo é uma defesa tristemente frequente. Resta interpretar e reinterpretar. Lutar por cada milímetro de discurso e apropriação da verdade.

É bom saborear o silêncio. Deixar as emoções e os conceitos pingar na consciência. Apreciar o timbre do eco, a amplidão do espaço interior. E intuir que nada nos separa do que nos rodeia.