#000018 – 30 de novembro de 2019

Eddie Vedder pede para ligar as luzes. Todas as luzes. Olha o público em volta do quadrado do palco, no Madison Square Garden. Tem o cabelo curto, envelheceu. Diz, estamos vivos. Estamos vivos, repete.

O suicídio, a heroína e o álcool assolaram a minha geração. Os meus heróis foram caindo, perdendo a batalha com demónios interiores. Fui pondo de parte qualquer hipótese de identificação com a figura do artista autodestrutivo. Quis viver. A loucura nunca foi uma fuga. Era um peso, um fardo. Custou-me muito caminhar, com o chumbo do delírio a derreter-se e a solidificar de novo, sabotando-me o esforço. A utopia é a lucidez.

Estou vivo, estamos vivos. Maldição é o ódio de si mesmo. Quero o sol e a ingenuidade e a crença tola de que o futuro será melhor. Quero envelhecer. Dar nome às dores, como as personagens de Shaman, do Kim Stanely Robinson. Visualizar a transmutação da dor em compaixão, abraçar como quem embala o amor.