#000029 – 11 de dezembro de 2019

O Kim Stanley Robinson diz que a ficção histórica é sobre o passado e que a ficção científica é sobre o futuro ou sobre o passado distante. É uma perspectiva útil e desafiadora esta de pensar nas narrativas sobre o passado remoto como uma abordagem sci-fi. Histórias sobre o Neolítico ou até sobre uma época na Terra antes dos seres humanos podem ser construídas como um esforço de imaginação fundado em ideias científicas, à maneira da hard-scifi. Mais interessante ainda é pensar nas histórias sobre o futuro como mergulhos no passado. Diz o autor americano que um romance histórico usa a documentação, os vestígios, as descobertas e teorias da historiografia. Já para o que não se pode conhecer, porque não sobreviveram documentos, os vestígios são insuficientes, ou porque simplesmente não aconteceu nunca ou ainda, a estratégia terá de ser diferente.

Futuro é palavra que uso de forma bastante livre. Não me sugere, simplesmente, o tempo que vem a seguir. É uma palavra problemática, controversa, refere-se a algo que não existe. É espaço para a imaginação, a utopia, a discórdia, a erupção de ideias e idealismos. E nisto, a memória é fundamental. Só nos podemos posicionar em relação a algo que antecipamos, porque temos registos e hábitos, tendências e preferências. A ficção é eletricidade que atravessa o tempo, que liga e anima fragmentos em narrativas e vozes. Antes de falarmos, num espaço amplo, antecipamos que a voz irá ecoar. Depois de nos calarmos, a proclamação ainda pulsa, momentos depois da garganta se silenciar.

O futuro e o passado remoto estão antes e depois do eco. São o passo atrás que se dá, que permite pensar e reinventar a voz, o próprio espaço. São um extraordinário vazio. E sabemos que a nossa natureza humana preenche o vazio de forma automática, torrencial, delirante.