#000049 – 04 de janeiro de 2020
Dopesmoker, dos Sleep, é para ser escutado de uma só vez. É uma só dose, uma mesma dança, a única noite dos amantes mais derradeiros, viagem com uma única saída. É um álbum que demorou muito a ser publicado. Com uma história difícil e um álbum pelo caminho com nome de terra prometida, que estava aquém das exigências da banda. Escutei Dopmesmoker poucas vezes na minha vida. Gosto de ligar o som desta obra prima no início de uma viagem de comboio longa. De fechar os olhos e me deixar conduzir pelos riffs e pela improvável narrativa de uma mística caravana de fumadores de cannabis pelo deserto, por aquele crescendo que tem tanto de sexual como de trip de intronauta. Dopesmoker é um álbum e é uma faixa de mais de uma hora. Há música tão intensa e cerimonial que só a visito por vezes, como a uma droga demasiado eficaz.
Samothrace é uma banda que veio, gravou algumas faixas e desapareceu. Há tão poucas faixas com aqueles riffs pesados e melancólicos, os licks trágicos da guitarra solo, e aquela voz rarefeita e animalesca que passo anos sem escutar Reverance to Stone ou Life's Trade. Acontece-me isso também com YOB, que vi ao vivo em Atenas. Escutá-las é sentir, mesmo sem me mexer, a intensidade do headbang, desacelerada até quase à imobilidade. Perco capacidades linguísticas e esqueço tudo quando a rudeza melódica e a lentidão de mel a pingar e passos de titã na paisagem me atinge. Há uns anos chamava a isto inner dancing, a essa mão que a música usa para nos pegar no coração, para nos apertar, despertar ou nos embalar e segurar perto do abismo. Estes riffs lentos são o que os fãs de stoner/doom chamam de pesados. E por isso é que um álbum como “The Bees Made Honey in the Lion's Skull” dos Earth, sem um único instante de distorção na guitarra, com uma bateria que quase desaparece, no seu pulsar de coração no peito das músicas, com a delicadeza repetitiva da sua melodia e sem nenhuma voz, é considerado um álbum muito pesado.
Esta intensa dança do íntimo que o stoner metal instiga é introduzida tradicionalmente nas músicas doom pelo feedback da guitarra. Como uma semente de caos, este som é prolongado, antes ainda que as batidas da bateria iniciem o ritmo. Uma estranha estrutura. Começa-se pelo final de um orgasmo, cujos fios de prazer ainda sobem como fumo de incenso. E a seguir a música será lenta, num avanço de lava, toda a força explosiva do centro da terra a captar a nossa atenção, a imobilizar-nos de maravilhamento e espanto.