#000054 – 09 de janeiro de 2020

Em criança os meus mitos eram cristãos. Intrigavam-me os textos antropológicos. Outros mitos eram apresentados como naturais. Fui crescendo num fascínio por essas narrativas, em que a ciência convive bem com a magia, o sobrenatural, seres invisíveis e crenças improváveis. Malinowski, se recordo bem, fala da magia a propósito do estádio de algumas culturas em que humanos acreditam poder interferir com o mundo natural. A religião é um momento a seguir, outro estádio, em que existe intermediação, sacerdotes invocam o favor dos deuses.

Na ciência, tenho alguma divergência em relação aos novos ateístas. A ideia de que não é preciso acreditar não me faz sentido nenhum. William James demonstrou que acreditar em algo como a água ser H2O é ainda crença. Crença científica, diferente de crença religiosa, mas crença. E é por darmos crédito aos cientistas que abdicamos de aprender química e técnicas de laboratório para podermos demonstrar a nós próprios que é verdade que as moléculas de água têm dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio. O conhecimento humano é cumulativo. E a nossa apreensão desse corpo científico depende também da forma como nos relacionamos com quem vai produzindo hipóteses e teoria. É tragicamente possível não acreditar que a terra é esférica, ou que tem mais de 5.000 anos.

China Miéville, N.K. Jemisin, Neil Gaiman e Ursula K. Le Guin trouxeram-me a magia de volta, como ingrediente de mundos que criaram. A sua é diferente da magia a que se referem os antropólogos. Curiosamente, na antropologia a magia é metáfora. E nas histórias dos autores que me influenciam é algo palpável, real. O fantástico é esse género literário paradoxal em que o impossível é codificado e co-existe com o mundano. E ainda assim, continuamos a identificá-lo como extraordinário. Torna-se saliente, improvável e credível.

Fora dos livros, a realidade. Coisa que, extraordinariamente, também precisa que acreditemos nela.