#000057 – 12 de janeiro de 2020

Em “A Door into Ocean”, Spinel viaja até Shora. Ele é um rapaz que vem de uma sociedade patriarcal, convidado a visitar o planeta líquido para que as que suas habitantes, exclusivamente mulheres, possam averiguar o potencial dos homens de aprender. Merwen é que tem a ideia, que algumas das suas irmãs pensam ser uma má ideia. Spinel, a princípio, desconfia deste mundo em que não há homens. Crescerá e o maior elogio que recebe é ser tratado como irmã. Na língua de Shora não existem palavras para posse, coação ou para o masculino. Joan Slonczewski criou uma sociedade de mulheres que não só não necessitam de homens mas são fortes, assertivas e capazes. Spinel torna-se um homem forte, física e mentalmente. Ou seja, uma mulher.

Ursula K. Le Guin surpreendeu em “The Matter of Seggri”. A história que escreveu é pouco usual, na literatura sci-fi feminista. Há uma desigualdade enorme nos papéis que homens e mulheres desempenham, sendo que os homens não têm direito à educação, a cargos públicos nem a nenhuma decisão importante. São troféus sexuais, completamente à mercê das mulheres. Duas coisas importantes, consequência uma da outra, saltam destas páginas: as mulheres também são capazes de reprimir o sexo oposto e se o sistema estabelecer a primazia feminina, não existe nenhuma natural superioridade dos homens.

Os deuses e semi-deuses masculinos de N. K. Jemisin na série “Inheritence” são violentos e sedutores. E há características diferentes, bem marcadas, para o que é feminino e masculino. Todas as personagens têm uma diferente conjugação dos dois lados, é verdade. Mas há algo de clássico, na forma como a autora aborda papéis e género. Ainda assim nada do que escreve contraria, por exemplo, o feminismo da segunda onda de Agnès Vardas, que a fez colocar num filme um grupos de mulheres de todas as idades, nuas sem que a nudez fosse exploração, a olhar o espectador nos olhos. Uma delas dizendo, “eu quero ter filhos” a outra “eu não”, nenhuma das vontades menor ou melhor.

Eu tenho dificuldade em criar personagens masculinas. Um homem forte e assertivo é difícil de elaborar, fora do universo dos vilões. Nisso, estou em boa companhia. Desde os anos 90 que não conseguimos sair disto, nós os homens. A terceira onda do feminismo continuou a pensar papéis, a experimentar e propor, a refletir. Mas nós, os homens que também desejam uma sociedade próspera e livre para todos, ainda não pensamos de forma verdadeiramente livre e fértil. Os heróis masculinos que produzimos são muitas vezes inseguros, imbecis e a melhor habilidade de que são capazes é o humor autodepreciativo. Isto é bem visível na personagem principal de “Y: The Last Man” do Brian K. Vaughan. Divertimo-nos com o ego descabido de personagens como Gary, em “Final Space”, ou do Captain Ed Mercer, em “The Orville”, sabotando os papéis masculinos que já caducaram há décadas mas não propomos outras possibilidades para a época que vivemos. Sou também culpado disto, de escrever personagens masculinas que não sabem o que querem, não se conseguem afirmar ou que não têm noção de que o que querem é ridículo ou desadequado. Já as minhas personagens femininas são as que procuram o significado das coisas, as que desafiam a autoridade e enfrentam o seu próprio medo.

A inspiração para algo diferente vem sobretudo de autoras. Nos três exemplos que dei, estas escritoras apresentam homens mais complexos e interessantes do que os que têm habitado as minhas histórias. Mas existe também o China Miéville, que tem personagens queer, homens que amam homens e que tanto reapropria como subverte os papéis de género que nos chegaram pela tradição literária. Usando os super-heróis, que não me fascinam muito mas são ótimos identificadores de cultura: o desafio que tenho perante mim não é como escrever histórias para a Wonder Woman, é como escrevê-las para o Superman. Como seria a masculinidade na nossa utopia?