#000062 – 17 de janeiro de 2020

A história da mulher-cisne atravessou milhares de anos. Este conto terá surgido no Paleolítico chegando a diferentes culturas humanas. Stanley Kim Robinson fez Thorn contar a sua versão desta história, em Shaman. Neste livro, o contexto da micronarrativa é o de tribos que roubam mulheres para tomar como esposas. A capa de penas, sendo roubada por um homem, impede que a mulher se transforme, assumindo a sua verdadeira natureza, e voe. O homem que lhe rouba a roupa de cisne mantém-na sob chantagem e obriga-a a casar com ele.

No ballet O lago dos Cisnes e alguns filmes Disney, o motivo da mulher-cisne é reapropriado de forma a que a transformação da mulher em pássaro não é a sua natureza, é uma maldição. E um príncipe salva a passiva donzela da maldição, como noutras histórias de princesas em que o seu único papel é o de aguardar o heroísmo do homem com quem irão casar de agradecimento.

Aqui deixo a minha versão desta história que assumiu tantas versões e que tudo indica continuará, enquanto houver homens e mulheres, ou simplesmente amor:

A rainha dos cisnes tomava banho. O som da cascata impediu que escutasse o mergulho do caçador no mesmo lago. Quando se virou de costas debaixo da cortina de água branca, ainda tinha os olhos fechados. Abriu os braços como a asas e assemelhou-se a uma figura humana em pleno voo através da água. Abriu os olhos e o frio fê-la procurar a margem, onde tinha deixado a capa de penas. Foi então que viu o caçador.

Não deixou que ele percebesse o susto que a acordou. Olhou-o diretamente nos olhos, para lhe buscar as intenções, algum indício de perigo, as mãos dentro de água até aos pulsos, o seu corpo reluzente como o de um mamífero aquático. Aquele homem tinha de facto ar de caçador, gestos de quem se habituou a ver sem ser visto e a não fazer movimentos bruscos quando a presa o surpreende. A mulher mergulhou, raspando com os joelhos no fundo rochoso, e nadou por baixo da cascata, escondendo-se. Esperou o pior, preparada para a luta.

Através da cascata, a figura do caçador era imprecisa. Como a imagem de um sonho. Ficou vigilante, sem nenhuma outra barreira além da água que caía veloz, com estrondo líquido. O caçador afastou-se, o seu corpo de homem mais e mais pequeno. Uma intuição fez a rainha dos cisnes tremer. A sua roupa de pássaro. E se ele lhe rouba as penas? Enfiou a cabeça através da água, pronta para atacar. A sua suspeita confirmou-se. O caçador levou a sua presa, afinal. Conseguiu ver-lhe as costas, uma mancha grande de cor mais escura, junto à cintura, em forma de lua minguante. Berrou, mas o homem nem olhou para trás. Tinha já saltado para cima do cavalo, a capa da rainha dobrada dentro do alforge.

Durante as semanas que antecederam a migração para o palácio de inverno, a rainha reinou em forma de mulher. O seu povo voava, banhava-se nos lagos reais e todos se reuniam ao fim do dia arensando estridentes. Quando chegou a altura de partir, o cisne em forma de mulher despediu-se dos outros cisnes e ficou longamente a olhar as suas asas, o seu voo lento, pescoços a apontar o Norte, contra o céu poente.

No inverno, a rainha saiu. Caminhou entre humanos, trabalhou em tabernas, mendigou pão e água. Passou por aldeias e cidadelas, juntou-se a bandidos na estrada e a piratas no mar. Procurava um homem com uma lua nas costas.

Chegou a Primavera, veio e partiu o Verão. A rainha dos cisnes abandonara o seu povo. A sua pele tinha marcas do sol, as suas mãos calos, o corpo cicatrizes, memória de facas e quedas, de perigos vencidos. Passaram-se muitos invernos e o seu cabelo embranqueceu. Os seus olhos tornaram-se cinza fazendo-lhe a pele bronzeada parecer ainda mais escura. Tinha uma estalagem, perto de uma encruzilhada, onde caminhos para o mar e para a montanha e trilhos de transumância se encontravam. Gostava de escutar as histórias dos viajantes que ali passavam a noite. Tornou-se conhecida por oferecer comida e bebida a quem tivesse uma boa história.

Um dia chegou um homem muito sujo, o cavalo cansado trazido à mão, poupado de o transportar. Falou pouco, mas pediu que lhe preparassem um banho. Quando desceu, tinha cortado a barba longa. Era visível uma cicatriz a atravessar-lhe o queixo. Tinha roupa muito velha, com alguns buracos, mas eram claramente peças que tinha guardado até agora. Estavam limpas. Desta vez, a rainha falou, talvez pela primeira vez em anos. Perguntou-lhe de onde vinha. De longe, foram as únicas palavras do homem, que continuou a comer a sopa.

A mesma intuição que a fez colocar a cabeça através da cascata, à procura das suas penas, fê-la sentar-se e colocar o queixo sobre as mãos cruzadas. Deixou que ele acabasse a sopa e olharam-se a direito, durante muito tempo. Ele tinha os alforges junto aos pés. Levantou-se e subiu até ao quarto. A rainha esperou, sem um pensamento a manchar a intuição feita de imagens e sangue a correr nas veias. Subiu.

No quarto, sentiam-se os cheiros do sabão e do pó humedecido em água quente. O ar cheirava a homem, a estrada, a tempo. O caçador estava inclinado sobre a cama, pousando algo, a mancha em forma de lua visível no fundo das costas. Estava nu. Quando se virou para a rainha, o seu olhar era líquido e o pêlo do peito muito branco. A mulher-cisne tirou a roupa e avançou. Passou pelo homem e tomou nas mãos a capa de penas. Vestiu-se de si própria e saiu pela janela, o seu pescoço longo seguido por um bater de asas. Migrou sozinha, de perfil contra a lua, que crescia.

O caçador, que nunca foi caçador, olhou o conteúdo do outro alforge. Tirou a sua própria capa de penas, pousou-a. O homem-cisne olhou pela janela que tinha aberto para dois e ficou, demasiado humano, de asas espalhadas pela cama.