#000064 – 19 de janeiro de 2020

Demorei 30 anos a aperceber-me do meu erro. Thrash metal. Só ontem é que lhe acrescentei o primeiro h, ao escutar a palavra assim pronunciada num documentário sobre música. Em minha defesa posso tentar argumentar que entrei nos anos 90 com o grunge, palavra etimologicamente gordurosa e suja e que punk é palavra para insultar alguém que se considera sem préstimo ou um rufia. Que o género de heavy metal que saiu do underground no final dos anos 80 se distinguisse do restante metal com a palavra lixo, não me surpreendeu. Afinal diz-se thrash: bater com estrondo, castigando; flagelar. É apropriado. O grindcore e o crustpunk, que beberam da veloz intensidade do thrash e da aceleração focada e monolítica do punk, têm também nomes sinestésicos e castigadores.

Foram 3 décadas muito interessantes para este território musical. As mais improváveis misturas originaram adoráveis monstros, que tudo indica não serão híbridos. O black metal e o shoegaze misturaram-se. É possível encontrar mulheres a cantar black metal (sub-género tradicionalmente misógeno), como Chantal, dos Addaura. E os seus dreads voltam-se a encontrar em muitos músicos de extreme metal. Um certo glamour sem nenhum glam está completamente misturado com o feminismo de terceira onda na agressão vocal de Caro Tanghe, Angela Gossow, de Eva Spence ou de Danielle, dos Iskra. Estes últimos parte de um maravilhoso movimento chamado “red and anarchist black metal” ou rabm, com muito de red e anarquista mas não só black metal. À porta da segunda década do século XXI temos muito a agradecer à Kathleen Hanna, que nos anos 90 começava as atuações ao vivo das Bikini Kill pedindo “girls to the front” e impedindo que a violência masculina e o assédio tornasse os concertos inseguros para as mulheres. Esta preocupação com a segurança passou a ser visceral, bandas como os Foo Fighters interrompem concertos quando uma mulher é assediada ou alguém se torna violento, para que os causadores de problemas sejam envergonhados publicamente e expulsos. O explícito feminismo de Maynard James Keenan, dos Tool, era algo surpreendente num vocalista de metal nos anos 90, mas espalhou-se como a cura de uma doença.

Também para os homens, o heavy metal passou a ter menos fronteiras. Uma banda como Thou, uma sensibilidade como se encontra em The Botanist, ou projectos a solo como Horseback ou Panopticon são resultado desta nova masculinidade, em que a assertividade convive com a insegurança, a motivação com a incerteza. Em Cloudkicker ou Jesu não se vê vestígios dos fantasmas tóxicos que os anos 80 e 90 destilaram. E se Pantera foi um guilty pleasure de muitos adolescentes como eu, com aquele groove metal infeccioso e irresistível, aquela voz violenta a rasgar o ar, hoje podemos ter tudo: a emoção, a música e pessoas com quem nos identificamos (ao contrário do que personagens como o Phil Anselmo nos podiam dar). É verdade que quando alguém como Hunter Hunt-Hendrix, dos Liturgy, decide escrever um manifesto a propor um novo tipo de black metal, solar, ou quando os Defheaven lançam capas (de novo de álbuns black metal) com uma estética que eu diria quase queer, há quem se sinta insultado na sua identidade nihilista e misantropa. Depois de muitos anos em que nas entrevistas os músicos de metal denunciavam a mesma ambição, fazer a música mais extrema possível, o mais escandalosa possível, descobrimos que há ainda fronteiras a abolir. Que implicam uma nova coragem, a de enfrentar preconceito, barreiras mesquinhas, medo.