#000067 – 22 de janeiro de 2020

Falamos do panda-vermelho. De vários tipos de felinos. Das lontras. E finalmente de ursos. Há ursos na Grécia. E muitos lobos, diz-me a minha amiga grega. A certa altura afirma que quando escuta uma história de uma pessoa ter sido atacada por um urso, pensa sempre: o que estava aquela pessoa a fazer no habitat do urso? Não sei se falava de ursos gregos ou de ursos na televisão, em programas americanos. Rimo-nos e enternecemo-nos com a fofura dos animais peludos, com a forma como os pandas bebés atacam as pernas dos cuidadores, como rebolam e se movem tão adoravelmente.

Agora, sinto uma inquietude que na altura não foi evidente. Quando é que decidimos que o mundo dos animais selvagens e o nosso têm fronteiras bem distintas? As outras espécies cruzam-se, os rugidos e certos comportamentos servem para avisar os vizinhos para se afastarem. A convivência tem risco. A coabitação tem sobressaltos. “Are Humans Part of Ecosystems?” é o título de um artigo académico publicado em 1998. Além de ser uma expressão pesquisada por mim no Google. Diz a introdução do artigo, sugerindo o sentido da resposta, “To deny that they are seems ridiculous; to accept that they are, on the other hand, strips the concept of any meaning.”

O modelo de sustentabilidade do Japão é talvez o exemplo mais bem sucedido da forma como nos vemos, tendencialmente. O humano e a tecnologia de um lado, a natureza do outro. Os japoneses decidiram conscientemente modernizar-se e fizeram-no relutantemente, quando as potências coloniais lhes estavam à porta, durante a Restauração Meiji. O isolacionismo do governo Tokugawa foi substituído por uma abertura que ao mesmo tempo reforçou a tradição. Se a China é comunista e capitalista, o Japão é ocidental e japonês. Em vez de se juntarem para não serem vencidos, estes dois países usaram a adoção de uma cultura externa como a melhor maneira de manter essa cultura à distância. No Japão, disso nos dá conta Jared Diamond, a proteção da floresta começou no século XVII. E durante a ditadura dos xoguns no Período Tokugawa, era possível ser condenado à morte por abater árvores. O fim desta era no século XIX abriu caminho para que o Japão se industrializasse rapidamente e se tornasse mesmo um dos líderes tecnológicos mundiais. Mas a Restauração continuou a férrea proteção da área florestal e o modelo nipónico que ainda se verifica concentra propositadamente a população em cidades e deixa o campo quase intocado. Os japoneses podem usufruir da modernidade das suas metrópoles e visitar verdadeiros santuários naturais, a escassas dezenas de quilómetros, em que o tempo parece ter parado.

O Japão está longe de ser uma utopia. E vêm-me à cabeça imagens que não vi, imaginei apenas. Durante 400 anos o império Khmer prosperou. Quando António da Madalena chegou a Angkor em 1586, já a grande cidade tinha sido saqueada. Angkor é palavra que significa, muito prosaicamente, “cidade capital” e investigadores concluíram que tinha mais de mil quilómetros quadrados. Como comparação, em 2020 Atenas tem 412 e São Paulo 1.521 quilómetros quadrados. Foi a maior cidade da Antiguidade, com um sistema sofisticado de irrigação que conseguia fazer face às monções, drenando e reaproveitando a água. Comida, água e animais eram tão parte da grande cidade como os humanos. Nunca se estava longe de água e a comida era cultivada e colhida dentro da área urbana de Angkor. Nem vestígio da oposição entre as cidades e a serra em Eça de Queirós, entre o cosmopolitismo e o provincianismo, em “Madona” de Natália Correia. E nenhuma vontade, como os japoneses, de visitar a natureza como a um jardim, vivendo entre betão e neon. Angkor Wat, o maior templo, dos mais de mil que existiam, continua de pé e é ainda o maior do mundo. Não se sabe ao certo a população da grande cidade, que poderá ter andado entre 750 mil e um milhão de pessoas. Resisto à ideia de que as metrópoles atuais são mais evoluídas que Angkor. E pergunto-me: serão as atuais grandes cidades mais adaptadas à vida humana que as experiências de anteriores civilizações?