#000068 – 23 de janeiro de 2020

O fim de um livro bom adia-se. Fazendo de um dos paradoxos de Zenão uma tática, dividimos as páginas que restam ao meio, e depois de novo. Num dia, damos um passo satisfatoriamente curto. No seguinte, uma fração. Depois, estendemos a toalha do tempo e tornamos a refeição ainda mais frugal. Encontraremos nos espaços entre cada avanço um infinito. Contemplamos uma frase, fingimo-nos distraídos. Desfolhamos com prazer, nem sequer lendo, a mesma página para a frente e para trás. Atentos ao som do papel, vivendo já no mundo das personagens. O fim de um livro é uma inevitabilidade que se pode contrariar. Um dia, alguém me disse que o seu livro favorito está por terminar. As últimas páginas um desfecho guardado. George Steiner começou o “Grammars of Creation” com a maravilhosa “We have no more beginnings”. E eu penso: but we will always have endings. Let's just save them for last.