#000074 – 29 de janeiro de 2020

HUE, na segunda época de Final Space, tem um corpo. Tal como HAL 9000, HUE é uma inteligência artifical. E como em 2001 Odisseia no Espaço, na primeira temporada é uma voz que paira, anima e controla uma nave espacial. Omnipresente e tétrica. Esta voz, de uma humanidade demasiado eficiente, tem uma natureza imaterial, ao mesmo tempo a roçar o divino e o obsceno. É a sua esterilidade que assusta. A ausência de ambiguidade projeta uma sombra pesada, um fantasma de significado com todas as conotações do mundo. HUE, obviamente, é uma personagem cómica. Em 2020, os criadores desta animação fizeram-lhe uma maldade. Deram-lhe um corpo. Não o de um androide ágil e hiperhumano. Não. Uma caricatura, que não dobra os joelhos e é pateticamente lento e ineficaz. A voz, a mesma. Agora, aquela voz divina e simpaticamente ameaçadora é a voz de um boneco adoravelmente inofensivo.

Os eliminativistas gostam muito da analogia hardware/software como atalho para dizer que não compreendem este problema da biologia e mente humanas. Consciência é palavra problemática. A derrota do dualismo deixou um vazio e apenas uma expressão, romântica e desafiadora: “The Hard Problem”. O problema da consciência não parece ser um verdadeiro problema para os místicos como Ray Kurzweil. No que me toca, gosto da provocação de Thomas Nagel, enunciada logo no título do livro: “Mind and Cosmos: Why the Materialist Neo-Darwinian Conception of Nature is Almost Certainly False”. Foi precisamente Nagel que escreveu o influente artigo “What Is It Like to Be a Bat?”, há 45 anos. Escuto Radiohead, o mel da sua melancolia a distrair-me como um beijo a seguir ao orgasmo, impedindo a queda no eu. Não sei que espaço haverá para o humano no futuro, mas sei que o paraíso dos singularistas é o meu inferno.