#000075 – 30 de janeiro de 2020
“No one should ever work”.
Primeiras palavras e primeiro parágrafo do incisivo “The Abolition of Work” de Bob Black. Nenhum libertário, avisa Black na pequena introdução ao ensaio, pode evitar a questão do trabalho. Quase 100 anos antes do texto de Bob Black, Alexandra David-Néel publicava “Pour la Vie”. Um e outro ensaio têm um fervor de manifesto e explicam as razões por que devemos considerar o trabalho uma forma de escravatura assalariada. A palavra em português tem mesmo uma origem sinistra. Tripalium: três paus. A palavra latina designa a estrutura de madeira onde os escravos eram amarrados e torturados, de pernas e braços abertos. Desde a época feudal que a necessidade de trabalhar é o que distingue as classes. Os senhores possuem. Os servos estão sob o jugo dos senhores. E foram os senhores feudais que primeiro criaram leis para punir o ócio. O trabalho é o que fazem aqueles cujo pão depende de outros. Os despojados trabalham. Os abastados vivem de rendas, do trabalho dos outros.
Não trabalhar, num mundo mais humano, não significaria viver uma vida sem sentido, de lazer e preguiça. Trabalho é simplesmente a palavra que designa essa relação de dependência, essa espantosa separação entre capacidade e sobrevivência. Acabei de ler Shaman e é claro para mim que o esforço terrível para sobreviver dos nossos antepassados não era trabalho. A personagem principal começa por fazer a iniciação por que todos os futuros xamãs passam. É deixado nu, sozinho, em pleno Inverno da Idade do Gelo. Tem de encontrar abrigo, fazer fogo, aquecer-se para não morrer congelado. Defender-se dos predadores, caçar. Fazer roupa, a partir das peles, construir diques para apanhar peixe. Manter o fogo, não morrer congelado. Descobrir o caminho de volta, não morrer congelado. Nenhum instante do que ali faz é trabalho. É mesmo o seu oposto. Loon, assim se chama, conquista a sua autonomia. Sobrevive e cuida de si.
A nossa forma de viver é sempre mediada pelo dinheiro. E o dinheiro não se pode plantar nem colher, muito menos comer. O hominídeo mais apto do mundo, no meio de uma crise financeira, sem emprego nem segurança social, sem amigos nem família, sem casa e sem comida, morre. Morre uma morte estúpida e indesculpável. Sociedade é palavra que passou a designar formas de organização terrivelmente desumanas. Mas o Antropoceno não é o Neolítico. E o primitivismo é uma utopia melancólica, um paradoxo perigoso. O China Miéville costuma dizer que não sabemos, não poderemos saber o que seria um mundo pós-capitalista. Devemos tentar lá chegar, mas só lá chegando é que poderemos ter ferramentas para sonhar o futuro que agora nos é inacessível. É uma ideia com algum mérito. Eu que sou um primário, penso logo no que é essencial. A fome não dá a solução. O desconforto de não ter comida, de não comer dias a fio não aponta para o local onde se encontrará comida. Mas diz: come. Podemos não saber como viver melhor, como exercer a liberdade que nos é vocação. Mas sentimos nas entranhas, no coração o mandamento: vive.