#000077 – 01 de fevereiro de 2020
Cory Doctorow escreve com uma perspectiva de insider, no que toca à computação. No que Jaron Lanier é conciliador, Doctorow é libertário. Demorei a assimilar o que me desafiava e a repensar os meus modelos. Cada vez mais tenho simpatia pelos cypherpunks, pela resistência ao patent trolling, pela necessidade de produzir e proteger software e hardware livres, não apenas open source. Foi previsto pelos pioneiros da tecnologia digital, há décadas atrás, que tudo se transformaria em software. Usamos expressões que mostram que isso já está a acontecer: “uberização”, termo da cultura popular, “Software Is Eating The World”, de um título de Marc Andreessen ou “Siren Server”, conceito de Jaron Lanier.
O perigo, por exemplo, que a produção e edição de livros seja engolida por 2 ou 3 gigantes ou mesmo apenas pela Amazon é real. Os leitores, nessa distopia que vários tecnólogos e CEO's procuram realizar, nunca seriam donos de livros. A nuvem teria todos os livros que alguém decidiu podem estar disponíveis, e os utilizadores apenas uma licença, que expira quando deixam de pagar a subscrição. Ainda numa perspectiva de defesa do capitalismo, Lanier lembra que um livro físico é um objecto que se possui, que pode até valorizar com o tempo e cujo dono o pode mesmo voltar a vender. Já a revenda de um ebook extraído da nuvem é ilegal e o ficheiro nem sequer é suficientemente valioso para que possa ser revendido.
Os heróis que nos podem inspirar são pessoas como Aaron Swartz, criador da licença Creative Commons e do formato RSS e cuja história trágica começou quando decidiu aceder ao servidor do MIT para fazer o download de uma grande quantidade de artigos científicos para os tornar públicos. Um número reduzidíssimo de gigantes detém os direitos sobre o conhecimento científico. O que nos liga também nos separa. Antes das patentes e do copyright, alguém que visitasse outra cultura ou sociedade poderia copiar e introduzir uma tecnologia nova ao regressar. Isto, que nos permitiu os avanços de que agora beneficiamos, foi ilegalizado. E pode assim a cura de uma doença terrível valer tanto dinheiro que a empresa dona do medicamento necessário pode subir o preço escandalosamente. Como Aaron Swartz, como as personagens utópicas e desenrascadas das histórias de Cory Doctorow, há que resistir. Sim, pode vir um futuro em que uma impressora 3D nos permita imprimir quase tudo. Mas se os direitos do ficheiro necessário para imprimir um filtro de água, um painel solar, uma bicicleta elétrica e os milhões de objetos do nosso futuro pertencerem a uma empresa, então seremos mais dependentes que nunca. Há que resistir.