#000082 – 06 de fevereiro de 2020
Recolhia a roupa do estendal separando calças de camisolas e vinham-me à ideia outras distinções mais fabulosas. Para a Emil Ferris, o monstro é o eu, talvez até o lado verdadeiro. Ou, numa interpretação à Zizek, é o vizinho em mim. O China Miéville, cuja coisa favorita também são os monstros, fala do corpo composto, da agregação de partes que não pertencem a um mesmo conjunto. E diz que não são uma metáfora de outra coisa. Que gosta que os seus monstros acreditem em si próprios. Num livro da Clara Pinto Correia, os monstros são presságios, sinais apocalípticos, evidências de ruptura e perturbação, excesso histórico. Os dragões da Ursula K. Le Guin são monstruosos. Estão para além do tempo humano, falam mas as suas mentes não entendem a verdade humana, separações para nós evidentes como as que intuímos entre aqui e ali, sim e não. Numa história que escrevo, com monstros, algumas destas influências estarão lá. Algo do que é indomável, do que resiste à realidade e a codifica, solidificando imagens do que não é.