#000084 – 08 de fevereiro de 2020
Nos anos 90 do século passado, um meme foi bastante eficaz. Nessa altura, a conotação imediata da expressão meme ainda era a original, proposta por Richard Dawkins num livro publicado em 1976. Dizia-se: “um ser humano não é um número”. Esta verdade cultural propagou-se como uma forma de partilhar uma certa resistência. Nessa altura tudo se começava a digitalizar e havia receios de que essa transição fosse também uma forma de desumanização da cultura.
Nesta era pós-Snowden, a forma de resistir é voltar a ser um número. Apenas a criptografia tem capacidade de nos proteger de abusos da nossa privacidade e segurança online, abusos legais e ilegais. É ao transformar a informação sobre o que fazemos e somos em algo indecifrável que podemos manter um reduto de dignidade e dificultar a vida dos que usam neurologia, ciências cognitivas e machine learning como armas e os nossos dados e metadados como munição.
Uma dificuldade tem impedido a propagação de ideias mobilizadoras. Ainda temos o paradigma de há décadas atrás. Tratarem-nos pelo nome como o Google faz todos os anos, dando-nos os parabéns na sua página inicial, é sentido como algo humanizante. A tecnologia computacional conhece-nos, sabe quem somos. A nossa identidade está nas mãos de centenas de entidades, desde agências de segurança até empresas que nos vendem como alvo bem parametrizado para publicidade. Parecemos bastante resignados com isso precisamente desde que saibam quem somos e não nos confundam com quem não desejamos ser. O triste meme “eu não tenho nada a esconder” é expressão dessa desistência de um espaço de intimidade e discrição.
A lei europeia de proteção de dados é um avanço, que merece apoio e continuidade. Mas estamos ainda num início muito tímido. O serviço Pipl é talvez o maior neste negócio de informação sobre identidade, com os seus anunciados 3 mil milhões de perfis, ou seja de identidades reais de pessoas. O número de pessoas que o Pipl “conhece” é equivalente a mais do que a população da China e da Índia juntas, é quase igual à soma dos utilizadores do Facebook e do Instagram, ou a 39% das pessoas que vivem na Terra. Avisa esta empresa no seu site que qualquer pessoa pode submeter um pedido de remoção dos seus dados, ao abrigo das leis internacionais. Mas avisam: uma vez que as maiores organização de comércio digital usam os serviços Pipl como forma de verificação de identidade, depois da remoção pode acontecer que uma tentativa de compra online seja recusada. É este o estado em que estamos: a conveniência dos serviços online exige-nos tudo em troca de muito pouco.
Não basta dizermos que somos mais do que os nossos dados. Seria o mesmo que dizermos que somos mais que a cama em que dormimos em resposta a termos uma multidão de desconhecidos permanentemente a entrar e sair do nosso quarto.