#000092 – 16 de fevereiro de 2020
O castigo de Sísifo foi terrível. Empurrar uma pedra encosta acima até à exaustão. Deixá-la escapar, rolando, até à base da montanha. Descer e recomeçar e falhar de novo e voltar a um início sem fim. O castigo não foi a tarefa. Não foi sequer juntar-lhe a eternidade. Castigo é receber dos deuses essa vontade de repetir o que nunca funcionará, esse impulso para o conformismo, essa procura mesmo da ausência de surpresas. Diz um cruel ditado português que enquanto o pau vai e vem folgam as costas. Descer, já nem olhando a pedra, porque ela estará sempre no mesmo sítio, é essa folga. E o alívio é possibilitado pela inutilidade do esforço. A recompensa é não a ter.