#000098 – 23 de fevereiro de 2020
A divisão entre cidades e campo é uma tentação antiga. Acreditar nessa separação implica aceitar alguns paradigmas. Que o poder está nas cidades. Que a vida simples e natural está no campo. Que a produção de cultura e arte é coisa urbana. E que o contacto com a essência das coisas acontece no campo. Esta tensão entre natural e cultural é conceito estéril.
Onde houver humanos, encontra-se o natural e o cultural. Na megametrópole mais poluída e artificial. E na reserva natural mais intocada. E a natureza não pára ao ver sinais de trânsito e betão.
Mais útil e desafiador é o antagonismo entre mobilidade e falta dela. Os senhores feudais, como a aristocracia que se seguiu, moviam-se com agilidade entre o rural e o urbano. A compra de ilhas, por bilionários, mostra bem essa fluida capacidade de sair da cidade e a ela voltar. A compra de bilhetes para o espaço aumentará em breve o raio de ação de um punhado de pessoas.
Os refugiados são os que tiveram que conquistar um pouco de mobilidade, com enorme risco e sacrifício. E que são culpados de terem conseguido. Fugir da guerra, da perseguição política e da fome é impulso que não oferece escolha. Deixar os filhos crescer no meio de todo o tipo de violências está fora de questão.
Se há divisão cada vez mais nítida é entre os que não têm escolha e os que lhes querem limitar ainda mais o espaço de decisão. Não deixemos que os que reinam nos dividam ainda mais. É preciso exigir o mundo, para todos.