#000102 – 27 de fevereiro de 2020

De vez em quando, limões. O meu vizinho fala apenas grego. É magro e alto. Tem uns 80 anos. Um dia ajudei-o a podar uma árvore. A única do jardim que não é limoeiro e que está florida, delicadas flores brancas nos ramos sem folhas. Usar o serrote com uma mão e com a outra evitar a queda não foi fácil. Seguir as indicações do meu vizinho também não. É como eu, pouco eloquente de gestos. O trabalho, que começou quando ele me viu na varanda e me convocou para o logradouro, lá se fez. No final, disse-me para tirar limões dos ramos mais próximos. Não percebi se era uma oferta, pela minha ajuda. Tive que pousar os limões, para poder transportar alguns molhos de ramos cortados. Deixei os citrinos pousados numa mesa. E não voltei atrás para os trazer. Alguns dias mais tarde, cruzámo-nos e fez-me uma pergunta que tinha a palavra lemóni (λεμόνι). Tentei responder, mesmo sem saber qual era a pergunta. Disse que os tinha pousado e apontei para os arrumos, no rés-do-chão. Não nos entendemos e fomos para as nossas vidas, resignados com a falta de idioma comum. Agora, atira-me limões para a minha varanda. Ainda pensei que queria compensar o facto de eu não os ter trazido, pagando às prestações a sua gratidão. Mas os que arremessa para a minha varanda estão rebentados. Quando pego neles, esvaem-se em sumo. Todas as semanas os encontro, ácidos frutos de uma suculenta incompreensão.