#000112 – 08 de março de 2020

Um certo paradoxo é bastante frequente nas histórias sobre Inteligência Artificial. Para que a emergência da consciência seja mais credível, acontece em réplicas nossas com rosto humano. É o seguinte:

O androide torna-se ou sempre foi consciente. E debate-se com as contradições habituais. São, curiosamente, questões existenciais humanas, não questões de uma máquina. O que é ser humano? Existe livre arbítrio? Perdendo as memórias, perde-se o eu? O paradoxo é que a máquina apresenta este comportamento atormentado também em privado, sem nenhum humano presente.

Ora, a emergência da consciência em software, segundo contornos que vêm de Turing, pode ser concebida como a passagem de uma simulação a algo com uma ontologia. Trata-se do processo que transforma a imitação em existência. Software que se tornasse consciente, seria consciente do facto de que é software. Por isso, a simulação só teria sentido na presença de humanos. Em privado, a inteligência daquela máquina seria plenamente e conscientemente artificial.

A maior parte destas histórias acaba por restringir tudo à questão de quão sofisticada pode ser uma simulação. E isto tem consequências. A nossa própria existência é questionada por alguns pensadores nesses mesmos termos. Há quem dê crédito à Hipótese da Simulação, que argumenta que a realidade é uma simulação, muito provavelmente uma simulação de computador. Este extremo estreitar da nossa cultura vem da preponderância das ciências da informação e da hegemonia da metáfora que criou um novo dualismo, hardware/software, a substituir o antigo corpo/mente.

Nas histórias que contamos, cabe-nos desafiar esta narrativa demasiado consensual, inventar mundos para personagens irrequietas, perseguir novos paradoxos, colocar questões sobre a condição humana.