#000113 – 09 de março de 2020

A década de 1970 começou com o Fim da Eternidade. Asimov explorou no seu livro paradoxos causados pelas viagens no tempo. Para sempre a ficção científica se iria ocupar de linhas temporais, filhos que viajam ao passado e matam progenitores, pessoas que conversam consigo mesmas num outro tempo. Esta confusão do tempo com o teletransporte talvez nunca abandone o nosso imaginário. E produziu histórias com uma complexidade encantadora, como a do filme Primer. Coherence, de James Ward Byrkit, parecia estrear em 2013 o interesse sobre outros fenómenos da física. Mas ali se inaugurou um ramo ainda sem descendência.

O tempo esgota-se. E pensar que ele descreve apenas uma direção e podemos escolher o sentido é tentador. Na história de Asimov, só agora percebo os ecos da teoria do caos. As personagens viajam no tempo tentando corrigir o passado, para que possam regressar a um presente melhor. Tantos erros foram introduzidos na história humana, quando se começou a viajar no tempo, que estes saltos temporais foram restringidos. Apenas um grupo pequeno de pessoas altamente treinadas viaja temporalmente. E antes de cada viagem é determinada a mínima intervenção necessária para desencadear a mudança desejada.

Chaos, de James Gleick, cita versos que contêm um resumo do que os cientistas chamam “sensitive dependence on initial conditions”:
For want of a nail, the shoe was lost;
For want of a shoe, the horse was lost;
For want of a horse, the rider was lost;
For want of a rider, the battle was lost;
For want of a battle, the kingdom was lost!

Esta forma de causalidade, que abreviamos dizendo que ao se perder um prego se perdeu o reino, é o efeito de borboleta. Mas abreviar é perder também o significado do caos. Para que o reino se perca, ou uma tempestade se forme do outro lado do mundo, uma imensidão de condições, causalmente interligadas, se têm de verificar. Os humanos que Asimov fez viajar no tempo percebem isso. Procuram o prego. Retiram-no da ferradura. Mas outro reino se perde, ou o mesmo se fortalece.

Sabemos que uma única borboleta é importante. O bater das suas asas muda o mundo. Um movimento nosso muda tudo. Mas não controlamos a rede causal que nos liga ao universo. Ainda no Chaos de Gleick, um anónimo é citado. Um teórico que disse que a ciência parte do princípio que não é preciso ter em conta o cair de uma folha num planeta de uma galáxia distante para calcular a trajetória de uma bola numa mesa de bilhar na Terra. A ciência entretanto mudou, desde que Lorenz descobriu os atratores estranhos. Mas supersticiosamente ainda queremos acreditar que viajando ao passado saberíamos qual vírgula mudar para obter o presente que desejamos.