#000117 – 13 de março de 2020
Cory Doctorow define o Steampunk de forma surpreendente. Fala em tecnologia disponível sem o complexo industrial. O benefício do gadget sem o rasto de poluição. Conveniência sem custo. Descreve um típico laboratório Steampunk como um local onde aparelhos surgem diretamente da criatividade do cientista. Vapor sem vestígio de carvão. Mecanismos mas não metalurgia. Metal sem extração. Isso talvez lhe tenha inspirado a tecnologia de Walkaway, em que tudo se pode imprimir. E objectos, máquinas, materiais surgem como criações do design inteligente de humanos.
Eu confesso ter dificuldade em pensar em locomotivas sem fogueiros, em fumo sem rostos enegrecidos, em sociedades movidas a vapor sem mineiros a morrer prematuramente. Mais ainda, custa-me pensar na era vitoriana sem pensar em miséria, fome, exploração. Tecnologia é palavra que originalmente significa conhecimento da técnica. O domínio do fogo é a tecnologia mais primordial da nossa humanidade. E há-que saber que o fogo queima e que se extingue.
Escrevo uma história em que há vapor, e o carvão tornou-se questão essencial. Penso que poderá ter uma vaga influência de The Finder, da Ursula K. Le Guin. Nesta história, um feiticeiro louco e poderoso controla a exploração de mercúrio, que é ao mesmo tempo recurso, ingrediente mágico e deus, na teologia psicótica do feiticeiro. Seres humanos definham e sofrem. A sua miséria, no entender do feiticeiro, contrasta com a pureza do metal líquido que extraem.
Noutras histórias, está ainda mais concentrada a ideia de exploração. Em The Dark Crystal, de Jim Henson, o recurso é a própria essência vital dos Gelfling, que os malévolos Skeksis extraem, matando o povo nativo. Noutras ainda, como nos livros da série Dreamblood, de N. K. Jemisin, os fluídos mágicos que são extraídos dos seres humanos têm o potencial de curar e de matar.
Faço a digestão dos pimentos recheados. Demorei muito a olhar o último parágrafo e a perceber a lentidão gelatinosa do meu cérebro. Sexta-feira, na Grécia, tem o nome de uma santa: Paraskevi. Significa preparação. E sábado e domingo são dias de enviar textos.