#000135 – 31 de Março de 2020

Dedos de macaco em máquina de escrever. O teorema do macaco infinito foi imaginado por Émile Borel. Afirma que bater em teclas aleatoriamente até ao infinito irá eventualmente produzir qualquer texto possível. Tal como as obras completas de Shakespeare.

A ligação a Jorge Luís Borges assaltou-me, ao acordar. Em Biblioteca de Babel, um ser humano está numa cela com livros a preencher as paredes. A cela é um cubo. E a seguir a cada face do seu cúbico lugar no mundo, há um outro cubo, também habitado. Este humano sai. Visita as pessoas que vivem também entre paredes. E desfolha as páginas que encontra. Alguns livros têm uma só letra, repetida. Outros, essa mesma letra, à exceção da última, diferente. O humano coloca a hipótese de que todos os livros possíveis ali estão, escritos.

No machine learning, alimentam-se os algoritmos de caos. Dá-se uma imensidão de dados, sem ordem nem instruções. E mostra-se uma imensidão de resultados, obtidos anteriormente. E os algoritmos procuram chegar de uma imensidão à outra. A ordem que descobrem é-nos oculta. George Dyson, ao falar nas instalações da Google, disse que o Google é um gigantesco exemplo de computação analógica.

Por enquanto, nós humanos alimentamos algoritmos. O comportamento online, as correções que fazemos voluntariamente, os cliques e os ritmos. Tudo serve de comida para o código. E os singularistas vão ficando cada vez mais convencidos da convergência para a qual trabalham e rezam.

Espero que, como o humano borgiano, cultivemos o impulso de conhecer as celas contíguas à nossa existência. E que coloquemos hipóteses. E saiamos a explorar.