#000168 – 03 de Maio de 2020
A expressão Inteligência Artificial é uma habilidade semântica. Artificial é palavra que se refere ao fruto da arte humana. Tudo o que é criado por humanos é por definição artificial. Ontologicamente, no entanto, definimo-nos por oposição à ideia de uma entidade artificial inteligente. Uma máquina inteligente é um outro, com peso existencial de sinal contrário. E por isso uma ameaça existencial à humanidade.
É estranha a forma como a expressão se tornou bem sucedida. E o seu triunfo só é possível porque conseguimos pensar uma coisa e o seu contrário, acreditando emocionalmente nas duas. Este duplopensar vejo-o assim: acreditamo-nos separados da natureza. Isso implica por exemplo não aceitarmos a nossa violência como algo natural, tal como a dos animais, antes como uma evidência de como nos separámos da natureza. A isto chamamos Mal. Mas acreditamos também que, na eventual presença de uma Máquina Inteligente, a sua inteligência seria artificial, a nossa consequentemente natural. São as máquinas, o engenho mais afastado da natureza que colocámos no mundo, que nos devolvem a ligação ontológica à “mãe” que abandonámos.
Esto perverso existencialismo tem consequências. Evita-se a reflexão sobre a sombra que o termo Inteligência Artificial projeta: a emergência da consciência em máquinas. Em vez de dizermos “uma inteligência artificial” deveríamos dizer “uma máquina consciente”. Assim ficaria exposta a estranheza de algo que vive na ficção científica e na fantasia mas não tem substância no mundo real ou na ciência. A outra consequência que me tem intrigado é mais devastadora. A própria ciência, confrontada com o chamado “Problema difícil da consciência”, capitula. Em vez de reforçar o esforço de tentar examinar melhor as dificuldades e lacunas que as ciências cognitivas, a neurologia, a psicologia e a filosofia da mente enfrentam, começa antes a sonhar esperançosamente com a Singularidade. Não sabendo o que a consciência é, talvez pudéssemos observar a sua emergência. Este é um impulso religioso, milenarista. Em vez de investigarmos, aguardamos um apocalipse, uma gloriosa revelação.
Assim, às máquinas futuras fica delegado tudo. O poder de nos aniquilar. A solução mágica para problemas que só computação transcendente pode resolver. A decifração das nossas contradições existenciais. O perigoso jogo de dados que decidirá onde nos vemos no universo. Aos escritores de ficção científica, desafios interessantes. Pensar onde estão os espaços fora da convergência para este buraco negro cultural. Que sementes plantar para que a consciência humana continue a ser uma questão que acende o universo. Como expor esta regressão ao dualismo, que agora pega no meme que o derrotou, “ghost in the machine”, como mantra do reducionismo mais delirante. Como continuar a sonhar de olhos abertos para a realidade.